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terça-feira, 31 de agosto de 2010

CRÍTICA DE CINEMA : NOSSO LAR


POR: http://www.cronicascariocas.com.br/cinema_respirandocinema_0171.html

Nunca tive uma formação católica específica, mesmo tendo sido batizado quando bebê na igreja católica, como a maioria dos brasileiros. Mais tarde, já na pré-adolescência, parti para um arremedo de catequese que nunca consegui terminar. Logo, acabei entrando para outro contingente nacional, o dos que só entram em igrejas em episódios-chave, como casamentos e missas de sétimo dia. Nessa fase adulta onde me encontro, a religião até faz falta vez por outra, e num desses momentos onde a pergunta é feita em relação a minha, a resposta freqüente sempre é ligada ao segmento que sempre me encantou e que considerei o mais próximo das minhas “crenças” possível (se é que tenho crenças assim bem definidas): o espiritismo. Talvez por ser uma religião mais agregadora, menos arcaica, com um olhar mais compreensivo às mazelas humanas e ao ser humano em si, além de ter uma visão que me encanta sobre a tal ‘vida após a morte’. Partindo desse princípio é que fui até ‘Nosso Lar’, aliás o mesmo princípio que já tinha me levado até o trailer do filme quando o mesmo foi divulgado pela primeira vez.

Meu principal medo era de me envolver demais e não ter o discernimento necessário para julgar, já que o tema me interessa e fascina desde sempre. Aliado a isso vinha o fato de que todas as imagens me pareciam arrebatadoras e de que nem as poucas falhas que eram óbvias no trailer me incomodavam de fato (como quando um dos personagens grita “André, o mundo precisa de histórias felizes”). Mas assim que acabou a sessão, ainda impactado, um amigo acabou com meus medos inicias: “ok, você gostou de ‘Chico Xavier’, mas odiou ‘Bezerra de Menezes’, não?”. E sim, isso era verdade. Tudo que eu mais gostei no primeiro era equivalente ao que tinha detestado no segundo; tranqüilizei-me então.

A trama do filme é adaptada do livro mais vendido de Chico Xavier e já traduzido para tantos países onde a religião esteja bem difundida; é como se fosse o carro-chefe para conhecer a obra de Chico. Eu já tinha lido o livro e não imaginava que ele fosse ser adaptado em sua totalidade; isso é uma burrice com qualquer livro, já que sabemos que uma adaptação cinematográfica consiste exatamente nisso, adaptar uma história e torna-la compatível a essa nova mídia, tendo em vista todas as limitações que ela exige, principalmente no que diz respeito ao tempo. E foi isso que o diretor/roteirista Wagner de Assis fez, enxugando a obra original até manter praticamente todo o foco em André Luiz.

E quem é André Luiz? Bem, André seria um dos guiais espirituais de Chico Xavier e o autor de ‘Nosso Lar’, que Chico teria psicografado. André teria escrito exatamente a sua história e é ela também a que assistimos nessa que já é maior produção do nosso cinema, tendo custado cerca de 18 milhões de reais. Na tela vemos um homem de meia idade desencarnar e ir parar no Umbral, que seria o lugar equivalente ao purgatório, e as almas estariam ali numa espécie/misto de observação, purificação e pagamento de pecados (obs: perdoem o ‘quase leigo’ caso os termos não correspondam à totalidade do que são ou representam). De lá, em dado momento André é resgatado e levado enfim para o Nosso Lar, lugar onde ele terá suas perguntas respondidas e tantas outras lançadas, aprendendo sobre o real ciclo da vida e as regras que regem nossa existência, antes e depois de irmos para lá. É nesse lugar também que André terá a oportunidade de finalmente crescer como ser humano, já que estamos sempre sendo lembrados que ‘a vida não termina com a morte, e essa seria apenas uma das passagens da nossa existência particular, apenas um recomeço’.

O trailer já deixava claro que os números de ‘Nosso Lar’ seriam superlativos, mas somente vendo o filme é que percebemos como eles foram bem aplicados. Tudo no filme é espetacular em matéria de produção: da direção de arte aos figurinos precisos, da montagem muito bem encadeada e por vezes esperta, aos aspectos surpreendentemente internacionais da produção, a fotografia do alemão Ueli Steiger (muito boa) e a trilha sonora do mestre Philip Glass. Quando poderíamos imaginar que o autor das fabulosas trilhas de ‘A Horas’, ‘Kundun’, ‘Notas sobre um Escândalo’ e tantas outras estaria numa produção nacional, com os mesmos acertos característicos de sua obra? Realmente um luxo muito bem empregado, a trilha de ‘Nosso Lar’ é marcante e poderosa, daquelas que grudam no ouvido. Enfim, o filme é um gol de placa visual.

Ao elenco, todo o peso está nas costas de Renato Prieto, o nome de maior alcance do universo espírita aqui no Brasil quando relacionado às artes e espetáculos, já que Prieto vive há quase 30 anos montando espetáculos de teor espiritual, inclusive uma versão mesmo de ‘Nosso Lar’; quando seu nome foi divulgado como protagonista, eu nem me espantei. Sua pouca experiência com o veículo não impede sua experiência e seu carisma de agir por ele, e sua presença acaba por ser encantadora. Ao resto do elenco sobra pouco espaço, todos com pequenos momentos, mas brilham Rosane Mulholland como uma jovem atormentada que acaba de desencarnar; Fernando Alves Pinto e Inez Vianna, como ajudantes do mundo espiritual; e uma belíssima e muito curta cena onde Chica Xavier demonstra porque é uma rainha na arte da interpretação.

Mas o maior medo que eu tinha em relação a ‘Nosso Lar’ estava no principal, o piloto escolhido para comandar o filme. Wagner de Assis tem em seu currículo apenas um filme anterior, e não era um filme qualquer, mas sim um dos piores filmes nacionais que eu já tive o desprazer de assistir, ‘A Cartomante’. Ao vê-lo capitaneando o projeto, soube que provavelmente o filme deveria ser um ‘projeto de produtor’, com toda a certeza; ao término da sessão, ao vê-lo também creditado como roteirista, só me resta aplaudir a grande iluminação que se abateu sobre ele e o transformou literalmente. Sem nunca querer ousar além da conta, Assis faz o trabalho mais correto possível e se arrisca muito pouco, exatamente como deveria, deixando o peso da obra ser o regente da orquestra. Na verdade nada no filme é exagerado, e nem a produção parece nos esfregar na cara suas pretensões (a não ser as de caráter doutrinador, mas que nem essas me parecem ser muito gritantes).

De fato, vejo poucos, talvez nenhum defeito no filme (ok, a tal frase “André, o mundo precisa de histórias felizes” é mesmo de lascar...). O grande demérito de ‘Nosso Lar’ talvez seja de cunho pessoal mesmo, já que a maior vontade é ver mais, saber mais, ficar mais lá naquele universo. O que é bom nunca é demais, e ‘Nosso Lar’ (o livro) tem muito mais questões, indagações e situações que ‘Nosso Lar’ (o filme); simplesmente sentimos falta de mais. O resto é deleite, para olhos, ouvidos e alma.

2 comentários:

Pacha Urbano disse...

O único que me preocupa é o excesso de didatismo que rege as produções espíritas, seja em telenovelas, seja nos últimos filmes do gênero. Como espírita separo completamente uma coisa da outra. Doutrina se pratica na vida, cinema se pratica na tela. Amanhã verei o filme e saberei se meus temores eram infundados ou não.
Excelente crítica. Parabéns!

Francisco Amado disse...

O começo do filme é feito em estilo vai-e-vem, isto é, intercala passado com o presente, mostrando aspectos da “antiga vida” em conflito com a “nova”. Houve certa demora nestas cenas, mas nada que prejudique a forma de contar o filme.

O Umbral foi muito bem retratado, nas melhores e mais arrepiantes descrições de André Luiz. Ponto pacífico também para a maquiagem e as feridas, que são super-realistas. Aqui, porém, há um detalhe: Falta paixão!

Praticamente, todos os personagens de Nosso Lar são interpretados de forma sem graça. Há um exagero do estado contemplativo, mesmo diante de conflitos graves da própria consciência; o filme usa e abusa das “caras de paisagem”.

Aqui, um detalhe curioso: Emmanuel está no filme! O espanto? Sim. Emmanuel não aparece na história de Nosso Lar. O filme apresenta Emmanuel e há um detalhe, que deixo na incerteza, coloca-o como um dos 72 Ministros de Nosso Lar? – Quem conhece o livro sabe que Emmanuel fez apenas uma breve apresentação de André Luiz, logo na introdução, não é personagem da história.

O filme Nosso Lar, assim, é caracterizado por “enxertias” que modificam parte da sua história. Acima falamos de Emmanuel, pois bem. Emmanuel não só é um dos personagens principais como há uma cena em que ele promove uma de suas obras (famosa no Movimento Espírita) e não houve como eu deixar de ver isto como oportunismo comercial...

Além disso, frases de André Luiz, de outros livros, também fazem parte de alguns diálogos que deixaram a espontaneidade natural que é apresentada no livro para alguns monólogos de frases prontas. Aliás, este é um ponto que me pareceu decepcionante no filme.
http://ensinoespirita.blogspot.com